A ATL tem por objetivo congregar escritores e intelectuais de todas as vertentes, propugnar por todos os meios ao seu alcance pela difusão, resgate, promoção e conservação evolutiva da cultura, incentivando sempre a criação literária.
No dia 5 de março de 2005 às 19 horas no Auditório da Escola Liceu de Tauá “Lili Feitosa”, foi fundada a Academia Tauaense de Letras, naquele momento imortalizado 14 Cadeiras com os seus Patronos e respectivos Membros Fundadores.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

BIOGRAFIA LOURENÇO FEITOSA

Lourenço Alves Feitosa
Patrono da Cadeira nº. 18

1. O Tempo:

Uma figura importante do Minho de Portugal veio para o Brasil: João Alves Feitosa, acompanhado do irmão José Alves Cavalcante.
Quando se deu isto? Podemos aproximar as datas, de acordo com os documentos e a lei. Em 1680, João Alves Feitosa foi requerente, com 9 companheiros, de uma sesmaria de 40 léguas em Araripecico, às margens do São Francisco, perto de Penedo. Um companheiro no requerimento era o filho Lourenço Alves Feitosa. Segundo informação do Dr. Vinícius Barros Leal, do Instituto do Ceará, a lei determinava que o requerente devia ser maior de 18 anos. Concedendo-se o mínimo de três anos para João Alves Feitosa chegar ao Brasil, casar e ter filho, vamos ter a data de 1659 para sua entrada no País Brasil.
João Alves Feitosa aqui conquistou o posto de Capitão de Milícias da Colônia (cf. Dicionário Bio-bibliográfico da Família Feitosa, I vol.,6). Casou com Dona Ana Gomes Vieira, filha do rico colono Coronel Manoel Martins Chaves, dono de terras em Alagoas e Sergipe, numa e outra margem do São Francisco.

2. Ascendentes:

Lourenço era filho de João Alves Feitosa e sobrinho de José Alves Cavalcante. Ambos assinavam com Alves no nome. Alves é síncope de Álvares, no linguajar de Portugal, é genitivo de Álvaro, algum ascendente dos dois.
O sobrenome Álvares é anterior e mais importante que o sobrenome Feitosa. Álvares vem ligado a dois ascendentes mui ilustres – o Benaventurado Nun’Álvares, o Condestável, a quem os cratenses de Portugal erigiram um monumento bem à entrada da cidade de Crato do Alentejo, e o descobridor Pedro Álvares Cabral. Portanto para quem é Feitosa vale a pena assinar Alves Feitosa. Esquisita a atitude do Mons. Antônio Feitosa que, já ordenado sacerdote, foi a cartório e retirou Alves de seu nome.
Feitosa passou de locativo a personativo com João Alves Feitosa, cujo nome anterior devia ser João Alves Cavalcante, como o irmão José Alves Cavalcante.
O motivo da modificação no nome deve ter sido entre saudosismo da terra natal e identificação da procedência: da Feitosa, freguesia do Distrito de Ponte do Lima.
Cavalcante com “i” e Cavalcante com “e” não designam nobresa ou plebeísmo, mas fidelidade à língua: na Itália, Cavalcanti com “i”; em Portugal e no Brasil, Cavalcante com “e”.

3. Os Lugares:

A primeira parada de João Alves Feitosa no Brasil foi em Penedo, nas Alagoas. Aí deve ter demorado, porque fez conhecimento, namorou, casou, teve filhos e requereu sesmaria; a segunda foi em Serinhaém, em Pernambuco, perto de Ipojuca; a terceira foi no Icó, onde pode ter sido pouco tempo, afim de orientar-se no andretamento no Ceará; João Brígido pensa que ele livrando-se da guerra holandesa; a quarta, segundo Raimundo Girão e José Alves de Figueiredo, romancista de Crato, foi em Santana do Cariri, onde erigiu a igreja, depois matriz da freguesia (Dic. Bio-bibliográfico, I vol., 5 e 6).
João Alves Feitosa, ao ingressar no Ceará, não desprezou suas sesmarias no São Francisco nem as deixou cair em comisso, pois seus netos iam anualmente ao São Francisco receber rendas de terras, conforme se lê no Tratado Genealógico da Família Feitosa, (p. 21, 2ª. Ed.). Suas terras lá continuaram, por herança, a pertencer a Lourenço, seu filho, e Pedro Alves Feitosa, seu neto, pelo lado de Francisco.

4. O Mega Sesmeiro:

Por princípio e para nossa informação, as sesmarias eram em média de três léguas e de quatro sesmarias por indivíduo. As sesmarias de 30 e 40 léguas eram para vários parceleiros que entre si combinavam o lugar e tamanho da posse. Em tudo isso houve exceção e preferência, porque houve sesmeiro com catorze, com onze e com seis sesmarias. Lourenço teve o excesso de vinte e duas doações (Tomáz Pompeu, Sesmarias Cearenses, refere vinte e três; cf. Dic. Bio-bibliográfico, I vol., 13).
Onde estavam estas terras a serem situadas de gado? No São Francisco, no riacho São João (Vocoró), no riacho dos Porcos, no Rio Jaguaribe, na ribeira do Quixelô, nos rios Caríus e Bastiões, nos Inhamuns, no Rio Acaraú e na Lagoa do Iguatu.
Por incrível que pareça, foi tal a atividade deste homem em tão vasto império que apenas uma sesmaria dele caiu em comisso, por falta de cultivo, e ele cuidou em requerê-la de novo: a do sítio de Santo Antônio e Riacho Cariuzinho (cf. Catálogo de Documentos Manuscritos Avulsos da Capitania do Ceará, Gisafran Nazareno Mota Jucá, 1999, n.º 636).
Uma pergunta zoa no espaço: todos os Feitosas do Brasil descendem de Francisco Alves Feitosa, porque o filho único de Lourenço morreu solteiro; como é que os Feitosas se multiplicaram tanto, em tão pouco tempo, a ponto de entre 1707 e 1724 (guerra com os Montes) já formarem um exército?
A 7 de fevereiro de 1725, o povo fez requerimento ao Senado da Câmara de Aquiraz, dizendo que o “Ouvidor José Mendes Machado, chegando à fazenda São Mateus dos Inhamuns, acham o Comissário Lourenço Alves Feitosa e seu irmão o Coronel Francisco Alves Feitosa, com seus parentes, etc. (Antônio Bezerra, Algumas Origens do Ceará, 1918, p. 137).
Juntando isso ao que Leonardo Feitosa dizia, que se fosse fazer um livro com os filhos ilegítimos dos Feitosas, daria um volume superior ao tratado Genealógico da Família Feitosa, eu suspeito que os grandes sesmeiros tinham a legítima esposa, e mais uma ou algumas mulheres nas casas das outras sesmarias; do contrário, a evolução dos Feitosas teria sido bem mais lenta.
Junto mais um dado a esta suspeita: em 1949, ajudei numa visita Pastoral de Dom Francisco de Assis Pires em Iguatu; fiquei pasmado com o número de Feitosas na Lagoa do Iguatu, exatamente onde foi sesmeiro Lourenço Alves Feitosa e causa dos desentendimentos entre Feitosas e Montes.
O Ceará custou muito a ser colonizado, por força da organização dos gentios e do General-seca, que espantavam toda possibilidade de assentamento da gente branca. Falhou a expedição de Perp Coelho de Sousa; falhou a catequese dos jesuítas; falhou o esforço de Martin Soares Moreno; mas não falhou a “Entrada” colonizadora dos sesmeiros pelo Acaraú, pelo Jaguaribe e pelo Riacho dos Porcos.
Lourenço Alves Feitosa fez uma autêntica e ousada Entrada e uma real e verdadeira Colonização, abrangendo quase todo o território do Ceará. Sua fazenda-sede chamava-se Fazenda da Serra, na ponta direita do primeiro vão da serra (direita de quem desce o rio Jaguaribe) que forma o boqueirão grande do Arneiroz, a meia distância da primeira sede da fazenda Barra do Jucá e da segunda definitiva sede, ao voltar do degredo do Piauí, de Francisco Alves Feitosa.

DISCURSO JOÃO GENEILSON


DISCURSO DE INSTALAÇÃO DA ACADEMIA TAUAENSE DE LETRAS

Hoje é um dia marcante em nossas vidas e na vida cultural de nossa cidade. Estamos assistindo nesse momento o alvorecer de um gesto de amor, de altruísmo e de prosperidade social para toda a região dos inhamuns, e quiçá, por que não dizer, com repercussão na vida da cultura do Estado do Ceará.
É que há muito tempo, meus amigos e amigas, figura no inconsciente coletivo de nosso povo alencarino, um fato inquestionável. Que seja, o consenso, longe de qualquer arroubo de arrogância ou pretensão, de que a cidade de Tauá tem se tornado célebre por possuir filhos ilustres, de considerável estatura intelectual, com destaque em diversas áreas da sociedade, que possuem o refinado gosto pelas letras.
Entenda-se, então, por letras, meus amigos, o ente lato que abrange as várias searas do conhecimento, sobretudo a abnegação irrefutável que falo especificamente - a de escrever e de impulsionar o saber, através de obras escritas.
Assim, uma vez que já eram dadas as condições para a instalação de uma Corte de Cultura em nosso rincão natal, volveu-nos a idéia de criar uma congregação não hermética de pessoas, que se notabilizam pelo exercício diário do saber e do que é belo, estético. Existiam as pessoas, existia um ambiente propício para o concurso de vontades, então pensamos: por quê não concordar esses dois vetores, e materializar a criação de uma Academia de Intelectuais, com as digitais de solo ressequido e de outros que aqui se radicaram (por amor, também, à nossa terra), para a difusão e celebração daquilo que o ser humano chama de Cultura.
É o gosto pelo Belo, pelo justo e pelo científico que nos une. Falo de meus colegas, com os quais concebemos, debatemos, e estamos materializando uma entidade para lutar pela perenização da Cultura em nossa região. E aquele do povo que é mais incauto se há de perguntar, para quê tal sociedade de amigos para a elevação do belo? O belo, já dizia célebre escritor francês Victor Hugo, é tão essencial quanto o útil; e Saint-Exupéry, nos ensina que: o essencial é invisível aos olhos.
Desta forma, meus concidadãos, a Academia Tauaense de Letras, nesta ocasião como se lhes afigura, saindo da sua fase de gestação, nasce, para cumprir uma função indiscutivelmente social, humana, filantrópica, e sobretudo, para gravar com pleonasmo o que ora deseja realçar, eminentemente cultural, e humana, acima de tudo. Representar, sem qualquer pedantismo, o espírito rico de nossa antropologia da cultura, se á que me permite falar assim.
Esta obra, que agora, somente, estamos a construir com a ajuda de nossos companheiros, e que haveremos de contar com a colaboração de toda a sociedade, nada mais é que um momento de justiça à inteligência dos Inhamuns. Como, então, faríamos a justiça histórica a tauaenses do porte de Joaquim Pimenta? por exemplo, que figura entre os maiores nomes da intelectualidade brasileira no curso do século XX, que muitas vezes penhorou a vida em prol da grandeza de uma causa justa; ou como poderíamos olvidar o gênio de um Joaquim de Castro Feitosa, que praticamente conscientizou a sociedade e o Estado do Ceará a preservar aquilo que lhe é inalienável e sem o qual a vida não subsiste: - o meio ambiente; como poderíamos, meus amigos, deixar passar ao largo o legado histórico e cultural de uma tal Francisca Clotilde, marco primeiro do feminismo em nosso Ceará; ou mesmo deixar de reconhecer as letras de um Doutor Domingos Gomes de Aguiar, entre tantos outros.
Esta sociedade de amigos, meus tauaenses, não será nem hermética, nem pedante, nem abusivamente formal, nem indiferente, isto é compromisso de todos que ora se imortalizam nesta solenidade. Em verdade ela será aberta, sem cores ideológicas, sem sabores partidários - eclética, sempre! Como sempre há de ser o que é justo e belo. Será um veículo na trilha da exaltação dos valores, nesta nossa sociedade que passa por uma crise de eticidade, ou mesmo por não dizer, uma crise moral. O homem, meus amigos e amigas, carece ressaltar: é uma animal social, cultural e que valora. Ele está sempre valorando, e nossa missão é também com os valores, algo que só engrandece o meio em que vivemos.
Particularmente, minhas senhoras e meus senhores, honra-me ter sido por meus colegas distinguido para presidir a primeira diretoria, motivo pelo qual me encontro transbordando júbilo, meus sinceros agradecimento a sociedade Tauaense e aos meus nobres colegas imortais que acreditarão em nossa idéia.
Esta é a Academia Tauaense de Letras
Um viva as pessoas que lutam por uma causa.
Um viva aos Inhamuns.
Um viva à Cultura.
Muito Obrigado.

Oração Proferida pelo o Presidente João Geneilson Gomes Araújo
05 de março de 2005